A sistematização dos tumores do sistema nervoso central teve seu marco inicial seminal em 1926, com a publicação da obra de Bailey e Cushing, que propôs a primeira classificação baseada na histogênese (a origem embriológica das células). Antes desse período, as descrições eram desorganizadas e pouco preditivas. A dupla de pioneiros correlacionou os tipos tumorais com as células gliais em diferentes estágios de desenvolvimento, criando uma linguagem comum que permitiu aos neurocirurgiões, pela primeira vez, diferenciar prognósticos e planejar cirurgias com base em uma lógica biológica, estabelecendo as fundações da neuropatologia moderna.
Nas décadas seguintes, a Organização Mundial da Saúde (OMS) assumiu o protagonismo na padronização global, lançando sua primeira edição oficial em 1979 e subsequentes atualizações (1993, 2000, 2007). Durante essa “era histológica”, o diagnóstico dependia quase exclusivamente da análise microscópica do tecido — o fenótipo do tumor. Os patologistas observavam as características celulares, como mitoses e necrose, para definir a linhagem (como astrocitomas ou oligodendrogliomas) e o grau de malignidade, que variava de I (benigno) a IV (altamente maligno/glioblastoma). Embora eficaz por muito tempo, esse modelo apresentava falhas, pois tumores com a mesma “aparência” ao microscópio frequentemente respondiam de formas muito diferentes ao tratamento.
O verdadeiro divisor de águas ocorreu com a atualização da OMS de 2016 e, mais definitivamente, com a Classificação de 2021, que inaugurou a “era molecular”. Pela primeira vez, a genética do tumor passou a ter peso igual ou superior à aparência das células. Marcadores moleculares, como a mutação no gene IDH e a codeleção 1p/19q, tornaram-se obrigatórios para definir certas doenças. Isso redefiniu diagnósticos clássicos; por exemplo, um tumor pode parecer um Glioblastoma ao microscópio, mas se tiver uma mutação IDH específica, ele é classificado como um Astrocitoma Grau 4, o que implica um prognóstico significativamente melhor e estratégias terapêuticas distintas.
Atualmente, vivemos a fase do diagnóstico integrado, onde a histologia e a genética se fundem para oferecer a máxima precisão. Essa evolução não é meramente acadêmica; ela permite a aplicação da oncologia de precisão, onde terapias-alvo podem ser desenhadas para atacar mutações específicas dentro do tumor. As classificações deixaram de ser apenas rótulos estáticos para se tornarem mapas dinâmicos do comportamento biológico da doença, permitindo que neurocirurgiões e oncologistas ofereçam previsões de sobrevida mais realistas e tratamentos cada vez mais personalizados para cada paciente.